Quero um Usaflex para minha mãe –”Os sapatos”

Postado por Laci Todeschini em mai.02, 2011, categoria Campanhas Especiais

Participante: Waldice Maria da Rocha Sedovim – Belém PA
Minha história:

Seu nome era Alice, mais alta que o meu pai. A raiva a fazia calar. Passava dias muda, a deixar que o coração se abrandasse para voltar a sorrir. Mulher simples, não tinha grandes luxos, talvez o maior fôssemos nós, as filhas. Sempre impecáveis: vestidos rodados, sapatos-boneca, cachos arrumados e laço de fita nos cabelos. Estava no oitavo mês de gravidez. Seria a quarta criança de uma prole de três meninas. Papai sonhava com um filho homem. A certeza de que ela trazia um no ventre, fazia-o demonstrar uma alegria que lhe era escassa. Embora a barriga a impedisse de se locomover com a mesma agilidade de antes, não parava. O serviço não esperava. Põe roupa no sol, tira roupa do sol, lá vem a chuva. Escada pequena, cinco degraus apenas. Limo acumulado das chuvas, piso escorregadio. Veio a queda, posterior a ela as dores. Época carente de médicos, de hospitais, de dinheiro. Meu pai deu dinheiro pra ela ir ao médico. Não foi. O dinheiro foi gasto com três sapatos. “As meninas precisavam”, disse ela. A parteira puxaria a barriga e tudo ficaria bem. Não ficou. As dores se intensificaram até chegar ao grito. O bebê não nascia. Recursos poucos, hospital pequeno, dinheiro que não pagava as despesas. A criança nasceu morta. Papai pôde ver seu sonho enrolado em um lençol. “Enorme”, “um meninão”. As lágrimas não vieram, talvez a aguardar dor maior. Essa veio, devastadora, depois de dois dias. O choro que relutava tanto em sair do peito, agora explodia em saudade, dor, solidão. Da casa, as imensas janelas permitiam a todos que passavam à rua espiarem a morte. O dia chuvoso fazia aumentar a tristeza. Às dezesseis horas o enterro saiu. Caminhávamos ao lado de papai, enquanto a lama, as poças de água, os pingos da chuva encharcavam nossos sapatos novos.

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3 comentários:

  • marilena ferreira da silva

    Essas Alice são muito forte, quantos sofrimentos, Deus abençoe onde quer que esteja, talvez tenha conhecido a minha Alicinha. Marilena

  • Silvia Meziat

    Waldice,
    Muito bonita a construção do teu texto.
    O exemplo que sua mãe legou à família será para sempre lembrado. Um espírito em crescimento que deixou bons frutos. Sejam todos abençoados com harmonia no lar.
    Fraternalmente,

  • Natália Maia

    Bela história, excelente texto!

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